História de Dona Cidinha
Rádio e cidadania
Dona Cidinha é uma mulher da periferia de São Luís. É lavadeira e dá um duro danado para sobreviver. Seu único passatempo é ouvir rádio. Ela é ouvinte fiel da Rádio Educadora. Pelo rádio fica sabendo das notícias, ouve música, se distrai e dá muita risada com programas que falam coisas engraçadas. Um dia ouviu uma notícia sobre o hospital que tinha sido inaugurado, mas nunca tinha funcionado. O comunicador da Rádio chamava as pessoas do bairro para participar da campanha de reabertura do hospital.
Pensou nela, nos filhos, quantas vezes tinha precisado ir ao médico e era aquele sufoco. Filas intermináveis, dificuldade de atendimento e de remédios. Aquilo era uma injustiça, pensou. Como um hospital podia estar fechado? Não contou conversa. Aprontou os meninos, trocou de roupa e foi também para a manifestação em frente ao hospital. Lá encontrou muita gente e foi uma alegria ver o pessoal da Rádio Educadora, gente que ela tanto admirava. Sentiu uma enorme vontade de viver, muito satisfeita, valorizada. Participou, bateu palmas, cantou, abraçou pessoas que ainda não conhecia, beijou seus filhos e voltou ansiosa para contar tudo ao seu marido quando ele voltasse do trabalho. Iria levá-lo da próxima vez.
A história de Dona Cidinha pode ter acontecido com outras dezenas de ouvintes da Rádio Educadora. A emissora promoveu debates, fez reportagens, enquetes com os ouvintes, ouviu as autoridades de saúde e, de repente, o assunto saiu da rádio e foi para as ruas. A população se mobilizou e passou a cobrar das autoridades o funcionamento do hospital; foram feitas passeatas e manifestações. A Rádio acompanhou tudo de perto.
Depois de alguns meses de intensa cobrança, o Governo do Estado contratou funcionários, permitindo assim que o hospital passasse a atender a comunidade. Hoje, no local, há uma placa de bronze em que a comunidade agradece à emissora pela campanha de abertura do hospital. Foi a partir da campanha que a comunidade se envolveu e conseguiu que o hospital fosse aberto. A Rádio Educadora de São Luís, Maranhão, cumpriu a sua função social.
Assim como a Educadora, muitas outras rádios espalhadas pelo Brasil ajudam a construir cidadania. A Rádio Jovem Pan FM, em São Paulo, por exemplo, tem como compromisso a manutenção de monumentos históricos. Em 2000, fez uma campanha para que a população escolhesse um monumento que deveria ser restaurado. Depois da escolha, a obra foi restaurada e a Rádio assumiu o compromisso de, durante um ano, ser responsável pelo monumento.
Em Cícero Dantas, no interior da Bahia, a Rádio Regional fez uma mobilização diferente. Na cidade, há vários dias faltava água porque havia estourado um cano e a prefeitura não resolvia o problema. Dezenas de solicitações foram feitas e nada. Até que a Rádio Regional convocou a população para um ‘panelaço’. Centenas de pessoas foram à praça, que fica em frente à emissora, e bateram panelas durante alguns minutos. A manifestação foi transmitida pela Rádio. No dia seguinte o problema do cano estourado estava resolvido.
O que faz uma rádio ser cidadã é a capacidade de mobilizar, de se envolver com o cotidiano da comunidade, de ajudar a promover mudanças. Em nosso país, dezenas de coisas podem ser feitas a partir da rádio: luta por mais vagas nas escolas, por um bom serviço de saúde, combate à discriminação racial, construção de casas em regime de mutirão, incentivo à plantação de árvores em praças públicas, localização de pessoas desaparecidas, distribuição de cadeiras de rodas para portadores de necessidades especiais, defesa do patrimônio público etc.
Outro projeto interessante é a Rede de Comunicadores pela Educação que reúne radialistas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Esses comunicadores foram capacitados e estimulados a trabalhar com temas voltados para a educação. Nas oficinas para capacitação dos radialistas, realizadas no ano 2000, um dos temas discutidos foi a pauta”. Como introduzir no dia-a-dia dos programas de rádio o tema educação? Os radialistas foram, aos poucos, descobrindo que qualquer pessoa pode falar sobre o assunto, não apenas o prefeito ou o secretário de educação. Os pais, alunos, professores são boas fontes de informação porque, afinal de contas, estão completamente envolvidos com o assunto. E pra falar de educação, não é necessário um programa especial.
O tema está no cotidiano das pessoas e, só isso, já é motivo suficiente para entrevistas, enquetes, reportagens. Você já parou pra pensar como anda a educação no seu município, a saúde, a mortalidade infantil? Todos esses temas, e muitos outros, podem estar nos nossos programas, sejam eles musicais ou jornalísticos. Basta que a gente encontre uma forma agradável de tratar do assunto. Assim se constrói cidadania no rádio, discutindo, trocando idéias sobre assuntos que estão muito presentes na nossa vida, mas que, muitas vezes, nem nos damos conta.
E podemos fazer isso numa rádio comercial ou comunitária. Não importa o canal, o que importa é que nós, Comunicadores, temos compromisso com o que estamos dizendo no ar. Afinal, também somos Cidadãos. Uma rádio é cidadã quando:
01. Conhece bem a realidade dos seus ouvintes e dá condições para que as pessoas e a comunidade discutam seus problemas, através de uma programação aberta para o diálogo;
02. Valoriza e respeita as diversas manifestações artísticas e culturais da região;
03. Abre espaço e valoriza as diversas manifestações artísticas e culturais locais;
04. Diverte, informa, fortalece os laços de amizade entre os membros da comunidade;
05. Usa seus programas musicais e de entretenimento para divulgar informações de qualidade;
06. Promove debates sobre temas atuais;
07. Os comunicadores estabelecem relações de confiança com a comunidade;
08. Usa uma linguagem clara, simples, alegre, bem humorada e motivadora;
09. Cria condições para que seus funcionários – comunicadores, operadores de áudio, diretores, repórteres - possam sugerir programas, formas de se relacionar com a comunidade;
10. Trabalha com a variedade de gêneros e formatos e apresenta programas ágeis e dinâmicos;
11. Entra em rede com outras emissoras e grupos, recebendo, enviando e divulgando informações.
José Ignácio López Vigil, no livro Manual Urgente para radialistas apasionados, comenta a definição de uma comunicadora canadense, Vinny Mohr, para rádio local e emissora de alcance nacional: “A rádio local é como um espelho, a nacional, como uma janela”. E José Ignácio complementa: “Nas emissoras locais, os cidadãos se vêem refletidos, identificam seus problemas e imaginam soluções e se organizam para melhorar sua qualidade de vida. A comunidade se escuta e escutando-se eleva a autoestima individual e coletiva. Os vizinhos se conhecem mais, se reconhecem melhor. A rádio local constrói identidade. As rádios nacionais ou regionais são como janelas para ver o que se passa no país, para perceber outros mundos. (…) Em nosso território coexistem uma variedade de culturas, costumes e crenças. Conhecendo essa diversidade, aumentamos o respeito pelos demais. Geralmente, não se valoriza o que não se conhece. A rádio com alcance nacional nos faz estimar os outros, mesmo que os conheçamos somente de ouvido. Não somos iguais, mas valemos o mesmo. A rádio nacional constrói solidariedade”.
Esta definição de Vigil ajuda-nos a compreender que a comunicação feita por uma rádio pequena não é melhor ou pior do que a feita por uma grande emissora. O tamanho da emissora, na verdade, não importa; o que vai contar mesmo é a qualidade da informação e da comunicação.
Vamos tentar, daqui para frente, perceber as nossas rádios, ou mesmo os nossos programas, como “espelhos” onde refletimos a nossa realidade, e como “janelas” para a construção de solidariedade? Mãos à obra!




